Em um olhar rápido pode parecer contraditório: ao mesmo tempo que estamos demonstrando as más condições de trabalho de muitas mulheres, especialmente em situações de informalidade e pequenos empreendimentos, estamos dizendo que é o trabalho que oferece autonomia, emancipação e possibilidades de vida digna. O que queremos então? Queremos um mercado de trabalho que leve em consideração as necessidades humanas e de cuidado, trabalho que ainda sobra na conta das mulheres.
Quase paradoxalmente, as mulheres só poderão viver de maneira mais autônoma quando “dependerem” de outras pessoas, companheiros e companheiras, estruturas públicas e privadas, para compartilharem o trabalho de cuidado. Ser autônoma, por fim, tem a ver com pedir e encontrar ajuda.
Isto se articula à divisão sexual do trabalho, arranjo da divisão social do trabalho em que as atividades produtivas, ditas masculinas, são valorizadas com diferente peso simbólico e diferente efeito material em relação às atividades reprodutivas, ditas femininas. Ao mesmo tempo, se conecta a tudo isto uma história social de característica patriarcal, machista e racista em que, por longos anos, foi mais possível aos homens (não deixando de notar especificidades de raça e classe) acessar a escolaridade, o mercado de trabalho formal e, por consequência, os espaços de poder (sejam políticos institucionalizados ou simbólicos), a circulação nas cidades e as liberdades sexuais.
É simples compreender que se as mulheres dedicam proporcionalmente mais tempo ao trabalho do cuidado, elas têm um provável prejuízo do seu trabalho produtivo se comparadas aos homens – o que se dá tanto pela impossibilidade de empregar-se no mercado formal quanto pela adesão a atividades que possibilitem articular ambos os trabalhos, produtivo e reprodutivo. Na vida dos indivíduos, isso pode se traduzir em ter menos rendimentos e depender de um companheiro para manter a casa, por exemplo. Importante lembrar que o rendimento é uma das principais variáveis para mensurar a autonomia feminina, já que a renda, principalmente aquela decorrente do trabalho, é fonte de bem-estar das mulheres e um indicador de desigualdade social.